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Allan Lima (esquerda), DJ Batata (meio) e Boris (direita) | Fotos: Redes sociais; WYSSBRAZIL; Arthur Rodrigues

A pandemia chegou sem pedir passagem e, de uma hora pra outra, todo mundo se viu “trancado” dentro de casa. Com a proibição dos shows, artistas e grupos se dedicaram ao universo da música digital. 

Fomos entender como isso afetou o trabalho de quem “faz acontecer” de dentro do estúdio. Participaram dessa “resenha” os produtores Boris, Allan Lima e Dj Batata. Juntos, eles assinam trabalhos com nomes de peso na indústria fonográfica do Brasil, principalmente do Rio de Janeiro, como: Sorriso Maroto, Di Propósito, Belo, Suel e Jojo Todynho, por exemplo. 

“Mesmo com todo o mercado de shows parado, o da produção musical continuou aquecido. Afinal, ninguém quer parar de lançar música. Essa é uma das principais formas de retenção de audiência”, destacou Allan Lima.

SAUDADES DE UM SHOW, NÉ?!

Será que o “novo normal” vai influenciar a maneira de curtir um show, de sambar naquele pagodinho e descer até o chão nas noitadas?

“Acho que volta ainda mais forte de início e, com o tempo, vai voltando ao normal. Tudo que é muito escasso aumenta a demanda”, comentou Allan.

“Com a vacinação, teremos uma explosão de shows e eventos, com o mercado aquecendo aos poucos financeiramente, até voltar ao que era antes. Acredito que as parcerias vão ditar o ritmo”, destacou Boris. 

Diferente de Allan e Boris, o Dj Batata acha que aplicativos como o Tiktok e a explosão das lives mudaram de vez a maneira como o público consome música:

“Acho que esse lance aí do TikTok, da galera estar se apresentando na internet, as lives, as danças, acho que veio pra ficar. Óbvio que vão voltar os grandes shows, até porque o pessoal não aguenta mais ficar em casa, mas não vai ser como antigamente.”

RITMO ACELERADO

Segundo o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), em 2020, 14,5 milhões de faixas foram cadastradas (Um crescimento de 16% em relação ao ano anterior). O número de obras gravadas (fonogramas) ultrapassou a marca de 11 milhões, 30% a mais do que em 2019.

Boris destacou que os músicos menores puderam trabalhar mais em si mesmos, tanto musicalmente, quanto em visão de carreira:

“Muitos artistas e produtores independentes perceberam que é possível gerenciar a própria obra. Independente do ‘tamanho’, é possível mudar a realidade e, posteriormente, pensar em se vincular a uma gravadora ou agregadora digital”, disse.

O tempo como um aliado

A pressa é inimiga da perfeição, certo? Pois o ditado também vale na produção musical, como contou o Dj Batata:

“A galera teve mais tempo para produzir. Quando não se tem tempo, às vezes você produz e manda, até pra poder fazer o clipe, pra subir logo nas plataformas digitais. De repente, você poderia ter ajustado mais, mas por questão do tempo, não deu. 

Na pandemia, a gente teve tempo pra fazer os ajustes e, nesse ponto, a ela foi muito boa para o mercado de produção fonográfica”, conta.

Adequação aos meios

O jeito de produzir e compor música já não é mais o mesmo. No cenário atual, muitos trabalhos são pensados no que pode viralizar na internet, virar coreografia e conquistar mais engajamento.

Músicas curtas, refrões marcantes, mensagens de “efeito” e ‘beats’ empolgantes são algumas características do que vem dando certo. Quanto mais gente reproduzindo esse conteúdo nas redes, mais chance de viralizar e virar hit. Se tocar no Rádio, a música ainda consegue ser “descoberta” por milhões de pessoas, impulsionando o consumo “on demand”. 

“Isso acontece principalmente na música pop. A composição e a produção já levam em consideração a coreografia pra rede social”, ressalta Allan.

A Produção “salva” uma música ruim?

Um “beat” empolgante e uma produção profissional podem fazer uma música que tem uma letra ruim virar hit?

“É muito relativo. Para mim, em sua maioria, não. Mas existem exceções”, respondeu Boris.

Já Allan acredita que “sim, dependendo do estilo musical”. 

“Se tratando de música romântica, acho a letra extremamente importante, mas se a música tem a finalidade de animar ou dançar, a produção é a alma do negócio”, completou.

Batata ratificou:

“Isso aí eu falo sempre. Existe música que a produção salva a letra e existem casos em que a letra salva a produção. Então, se uma coisa for muito boa, arrasta a outra.”

Vida útil

Com um volume tão grande de lançamentos, vem sendo difícil manter uma música no topo. 

“Com a grande quantidade de plataformas e canais de ‘plays’, a ‘validade’ das músicas está cada dia mais curta. Antigamente, um álbum ‘durava’ até 2 anos de trabalho. Hoje, a quantidade de músicas a serem lançadas torna tudo um pouco mais ‘descartável’ em termos comerciais”, finalizou Allan Lima.