16h às 17h

Furacão 2000

Ricardo Gama

Artistas de A - Z

Arlindo Cruz

Arlindo Cruz

 

 
Biografia
Da Madureira do Império Serrano e do Pagode do Arlindo , das rodas de partido-alto de quartas à noite e domingos à tarde na quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, Arlindo Cruz prossegue essa linhagem já lá se vão 30 anos. O DVD e CD duplo “Arlindo Cruz MTV Ao Vivo” (Deckdisc) é, para além da celebração de uma obra, a consagração, como cantor, desse compositor que discretamente mudou a cara do samba nas últimas décadas. E mudou a cara preservando a essência, recolocando o samba no rádio, popularizando as rodas de samba, incentivando a rapaziada mais nova a ficar no samba, abrindo diálogos com a chamada MPB (quem Maria Rita procurou quando quis fazer seu disco de samba”) e com outros gêneros (como o hip hop de Marcelo D2, aqui presente), compondo muito e bonito para tudo quanto é cantor ou grupo novo, cultivando todos os gêneros, do partido-alto ao samba-enredo, do samba romântico ao de fundo social. Arlindo fez, nesses 30 anos, um discreto trabalho cultural que este novo projeto resume e evidencia.

Arlindo também cultiva fundamentalmente o partido-alto, apelidado hoje em dia de pagode, gênero-mãe do samba e gênero central em sua obra. Senão, ouçam o desfilar de partidos que abre essa gravação ao vivo no Citibank Hall de São Paulo: “Casal sem vergonha” (em citação instrumental), “Malandro sou eu”, “Camarão que dorme a onda leva”, “SPC”, “Bagaço da laranja”, “Da melhor qualidade”, tudo gestado na quadra do Cacique, todos sucessos intensos Brasil afora nas vozes de Fundo de Quintal (grupo do qual Arlindo fez parte), da madrinha Beth Carvalho, a que primeiro notou o talento de Arlindo, e sobretudo do parceiro Zeca Pagodinho. É com a participação de Zeca, aliás, a música inédita feita pelos dois, “Vê se não demora”, “um partido-alto, é claro”, como diz Arlindo antes de começar a versar. Trata-se de um clássico instantâneo do gênero (“Não é uma obra-prima, mas é uma bela canção/Até caprichei na rima pra alegrar seu coração”, define Zeca num daqueles seus versos certeiros) que vagabundo vai certamente cantar adoidado nas centenas de rodas de samba que brotam país afora, influenciadas por quem? Arlindo, Zeca e companhia. Pensem na importância cultural disso aí...
Arlindo também é mestre no samba elegante, de meio de ano, romântico. Ouça, só para citar um punhado, a nova “Bom aprendiz” (parceria com o filho Arlindo Neto), o velho sucesso “Fora de ocasião”, “Saudade louca” (com participação da madrinha Beth Carvalho) ou “Não dá”, nova parceria com o grande Wilson das Neves, confrade de Arlindo no Império Serrano.
Arlindo também é notável e notório compositor de sambas-enredo. Canta aqui “Império do divino”, do carnaval de 2006, um dos tantos seus com que a Serrinha desfilou na Marquês de Sapucaí, e seguramente o melhor samba-enredo do carnaval carioca desde o célebre Kizomba, em 1988. Notem a emocionante introdução feita por agogôs, em homenagem à característica da bateria “sinfônica” do Império, comandada por Mestre Átila. Canta também, acompanhado do filho e herdeiro musical Arlindo Neto, o samba-enredo mais popular de todos os tempos, “Aquarela brasileira” (do carnaval de 1964), do mestre do gênero, o também imperiano Silas de Oliveira. Sutilmente, contudo, antes de celebrar Silas, Arlindo homenageia dois imperianos que de fato formaram sua cabeça musical, o falecido Beto Sem Braço, grande ídolo de toda geração Cacique de Ramos, e Aluizio Machado, baluarte vivíssimo, parceiro de Arlindo em “Império do divino”.

Arlindo também compôs hinos do samba. É o caso de “O show tem que continuar”, com a qual homenageia Luiz Carlos da Vila, seu parceiro recém-falecido, o gênio da geração Cacique de Ramos, vê-se por essa letra o porquê.

Arlindo está atento às influências de seu tempo. Tanto que encara o hip hop de Marcelo D2 (que improvisa sobre o samba “Mão fina”), o rapper que tanto se influencia pelo samba, nitidamente alargando o seu público e a abrangência estética de sua música.
Mas de novo, como a Candeia e a Martinho, a Arlindo interessa prosseguir na evolução do samba, esse “Velho malandro de corpo fechado”, sensacional samba-definição de Arlindo Cruz e Franco. Na verdade, o que Arlindo faz sempre em CD, show ou DVD é recriar eternamente aquelas tardes no Cacique de Ramos ou na quadra do Império, é fazer samba com a naturalidade da vida.
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